Mantra e Complexidade

{ em 05.10.2011 } { }

Clouds - Karindalziel

Quando criamos, seja o que for, sempre passamos por uma série de levantes criativos até que algo seja de fato expelido e concretizado. Chamo-os de levantes (no mais bel entender do Sr. Bey), pois entendo que as ideias surgem de um caos de informações e vontades – tanto imanentes quanto transcendentes – onde a própria natureza biológica nos prova que pensamentos são não pontos, mas redes. E redes regidas pela mesma dinâmica: a emergência.

O entendimento de como as ideias e a criatividade flui foi o ponto de partida para que começasse a me interessar por este modo como sistemas passam de um estado relativamente simples à complexidade. Palavras como caos, auto-organização, redes, teias, atualizações, não-linearidade, horizontalidade, coletividade, cibercognição, temporalidades, passaram a frequentar minhas ideias. Com Steven Johnson, entendi como a dinâmica de redes está presente na auto-organização de sistemas não-lineares como o cérebro, as cidades e as redes online. Este certamente foi um marco para mim, e guiou o rumo que minha graduação teve.

Aglutinei a ele principalmente os pensamentos do físico Fritjof Capra, onde encontrei uma peça fundamental para me apaixonar ainda mais pelo tema. Em sua teoria dos sistemas e ecologia profunda, Capra tece a auto-organização emergente como um mecanismo presente em qualquer nível da natureza – de células a galáxias – e como tudo – TUDO – está intrinsecamente interligado por uma rede interdependente. A teia da vida.

Mergulho isto, ainda, no mar contemporâneo de fluidez conceitual, das novas realidades trazidas pela tecnologia, da trans-conectividade, da supra-potencialização da hibridização e do conhecimento, da física quântica, e do tempo como um questionamento presente. Foi ao tentar nadar em meio a estas ondas que literalmente redefini meus propósitos de vida, e passei a redescobrir pouco a pouco pelas bases muitas das formas como enxergava o funcionamento de praticamente qualquer coisa.

Foi inevitável em certo momento tentar trazer estes conceitos à minha prática do design – principalmente a nível humano, mas também a nível de produção. Minhas referências passaram a ser outras, meus vislumbres estavam muito mais em processos emergentes do que em produções que repetem sempre os mesmos modelos relacionais. Passei a ver o design como algo inerente à vida, e não como uma prática profissional fatídica. O design que vive nos processos e nas relações!

Trouxe de forma rápida todo este contexto, pois julguei necessário para explicar a relação que ensaio a seguir. Encontrei o vídeo abaixo recentemente, e nele há fragmentos de um tipo de experimento que muito me lembra a arte generativa contemporânea, mas que até então desconhecia: cymatics.

Ver: Cymatics no YouTube.

Basicamente, cymatic é a forma que um som evoca sobre determinada circunstância. É a emergência de um sistema auto-organizado através da vibração de partículas induzidas pelo som. É incrível como, em todos os experimentos, cada partícula está a todo momento em constante movimento, mas há claramente uma forma-padrão geral formadas.

Estes experimentos me fascinaram. Ao conseguir enxergar o mecanismo emergente onde um simples som, constituído de movimento, é capaz de gerar padrões numa dança complexa de partículas, dei um grande salto quântico em minhas ideias!

Não seria esta a chave para entender como o design funciona no emaranhado da vida? As relações tecidas vibram numa rede caótica, formando padrões de outras e novas complexidades! Movimento gerador de mais movimento. A questão não estaria, para cada caso, encontrar a tonalidade de som que possibilitaria a emergência de um tipo de complexidade?

Facilmente ao pesquisar sobre cymatics, caí num outro assunto onde claramente encontrei ressonância de ideias. Os mantras: pequenas palavras-sons, que evocadas em determinadas circunstâncias são capazes de desencadear um processo de complexidade extremamente expansiva.

Longe de mim a prepotência de explicar o que são os mantras em sua totalidade (o que creio ser virtualmente impossível), o que segue abaixo é fruto de uma pergunta-brincadeira, um grande “E se?” que tenta entender o mantra como mecanismo potencializador para meu projeto.

Dentre variados “tipos” de mantras, destaco aqueles que são unicamente movimentos. Aqueles que foram a essência e origem dos demais mantras, que não possuem significado em suas palavras, nem propósito aparente, e que sua não-significação linguística faz parte da construção de seu poder emergente/expansivo: os Bija Mantras.

“Bija” possui a tradução simplificada para “semente”. Cada um possui características diferentes, porém, todos possuem traços em comum. A pronunciação de todos (em determinados contextos) parece nos levar à um espaço aparentemente vazio onde não pensamos racionalmente, mas de onde retornamos sensibilizados, como se tivéssemos passado por uma experiência absurdamente modificadora e clarificadora de um tempo sem limite, de um espaço contínuo, cheio de energia. Esta viagem é única para cada momento, para cada pessoa, para cada circunstância.

Há várias explicações e interpretações do funcionamento dos mantras – que vão desde as mais físicas/biológicas às mais místicas e religiosas. Fisicamente, suas ações estão interligadas tanto com a repercussão vibratória da pronunciação do som físico sobre nosso corpo, quanto com todo o contexto envolvido para sua pronúncia. A repetição de palavras que aparentemente não possuem sentido, bem como toda a preparação psicológica e fisiológica para recitá-los, atuam também em seu processo. Cada mantra está interligado com o fluxo de um determinado tipo de energia pelo corpo. É realmente fascinante como um pedaço sonoro minúsculo de a-significação gera tamanha produção.

“O mantra, portanto é uma ferramenta que possibilita a assimilação do sentido de um assunto complexo por uma via que não passa pela razão. O pensamento produzido pelo mantra é puro dinamismo, e, por isso mesmo, inconclusivo.”
Andre de Rose, baseado nos ensinamentos
do Prof. Carlos Eduardo Barbosa.

 
Encontrei no funcionamento dos mantras justamente a potencialidade que procurava encontrar nos cymatics, mas ainda maior. Seu design é absurdamente emergente, e parte de uma extrema simplicidade à uma complexidade profundamente transformadora. Este foi um ponto de mutação em meu processo, pois a partir de então me encontro e me inspiro nos processos mântricos para entender como meu projeto pode ao menos tentar caminhar para tamanha complexidade.

Seria possível criar algo tão destituído de significado aparente, tão abstrato, que fosse capaz de se desdobrar num processo imanente de percepção e significação sempre único? Algo que estivesse no ENTRE-coisas, algo que fosse movimento, e gerasse um padrão compositivo e diferente a cada um como resposta? Algo que a partir de uma modificação em rede “interior”, se expande e desdobra à extensão da teia da vida? Algo possível de se dobrar, desdobrar, e transdobrar por vias e modos aparentemente inimagináveis e infinitos, mas sempre compositivos? Algo de mínima tangibilidade, e máxima intangibilidadade? Ainda mais: como seria o design de algo que fosse desejante em si, e produtor de mais e mais desejos?

Ficou claro que qualquer linha de fuga deste mapa, qualquer possível atualização para a ressonância destas perguntas em meus modos de fazer, está sempre na produção de algo que se perpetua no “-ENDO”: em constante fluxo e processo, um instrumento-semente subjetivo em seus mapeamentos e repercussões, como um mantra.

Mapa do projeto

A esta altura, já possuo uma imagem de como posso experimentar a atualização deste projeto desejante. Espero já trazê-la num próximo post. =)


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