Nama

{ em 01.06.2012 } { }

Nama-installation-01-by-Ivy-Kawakami

Documentação final do projeto em:
http://luizzanotello.com/nama

Tecíbrido Desejante

Tecíbrido Desejante

É uma escultura sonora relacional que procura interagir e se re-criar a partir do desejo de seus interatores num espaço e tempo subjetivo e maleável. Incita a sensibilização de quem o acessa à um espaço fluído imaginativo, convidando-o a dialogar com uma teia sonora em constante fluxo e criação.

O projeto é parte de uma investigação pessoal acerca da produção de um possível “Design Vivo”: um organismo humanizante em constante mudança, capaz de produzir a diferença a partir de quem o toca, nutrindo-se pelas diferenças. Um design que, como a roupagem de Arlequim, viaja assumindo diversas formas, mas que pelas relações e roteiros já estabelecidos se modifica e fala palavras cada vez mais híbridas. Um corpo relacional que produz e possui desejos compositivos, situado e tramado num tecido de relações desejantes tanto imanentes quanto transcendentes.

“O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”
Manoel de Barros

Através de um ambiente sonoro, um tecido maleável, e uma teia relacional digital, o projeto procura construir um diálogo do interator consigo mesmo, num mergulho dentro de um caos interior onde a ordem emerge de forma imanente através de um entendimento imaginativo puramente estético, sensório, e não-verbal. O sujeito esculpe e modifica uma teia sonora aberta, tecida por ele mesmo e por outros interatores em momentos outros, incitando sua imaginação e fomentando um processo de descoberta da paisagem que constantemente se cria.

Permite com isto o acesso à uma nova percepção espacial, temporal e sonora – um “viajar liso” – onde o interator pode agir como queira modificando e dialogando com outro corpo orgânico-semiótico, mediado por uma interface-escultura com especificidades líquidas, e sensibilizado sonoramente por sua própria imaginação numa paisagem que o conecta à uma percepção de uma realidade em fluxo.

“Se eu utilizo uma fita de Moebius para essa experiência é porque ela quebra os nossos hábitos espaciais (…). Ela nos faz viver a experiência de um tempo sem limite e de um espaço contínuo.”
Lygia Clark – Diários (Caminhando).

Tecíbrido Desejante - Como Funciona

Como funciona:

Sua parte tangível é composta por uma interface maleável (um tecido híbrido wireless), situado num espaço sonorizado. O navegante interage com a interface através das mãos (corpo), que altera uma teia digital de sons, produzindo uma paisagem sonora que incita a imersão e imaginação do interator.

Digitalmente, os dados de manipulação da interface-instrumento alteram o estado de uma teia digital. Chamo esta teia de “teia relacional”: é relacional por ter seu significado sempre imanente à quem o acessa (a partir das especificidades duais do objeto em questão), mas é teia por não ser constituída solidamente e imutável, mas sim através de um sistema digital de partículas e relações auto-organizadas que criam novos padrões de forma emergente.

Portanto ao passo que há interação, os dados de navegação são re-inseridos no sistema, que se adapta cada vez mais ao interator. Esta aprendizagem do sistema altera a configuração geral da própria teia, que lentamente é modificada pela ação de múltiplos usuários que a acessam. Este espaço criado então exibe um comportamento não somente reativo mas organicamente vivo, por constituir um padrão auto-organizado gerado por múltiplos usuários – é tanto reflexo dos desejos de seus constituintes, quanto de sua própria vida que aos poucos se constitui. Criatura!

Os dados trabalhados alteram a rede gerando novos sons e composições sonoras, que são exibidos ao interator modificando e fechando assim um ciclo retro-alimentado entre as três partes. A paisagem sonora criada é portanto fruto tanto da interação do navegante, quanto da vontade da teia mestiçada. O som deve privilegiar esta transposição, e atuar na imersividade da experiência no espaço, estando sempre aberto à significação do navegante perante a paisagem criada. Ele age à procura de um som para a Dobra num processo de subjetivação do sujeito.

“O Objeto Relacional não tem especificidade em si. É na relação estabelecida com a fantasia do sujeito que ele se define. (…) Ele é alvo da carga afetiva do sujeito, na medida em que o sujeito lhe empresta significado, perdendo a condição de simples objeto para, impregnado, ser vivido como parte viva do sujeito.”
Lygia Clark – Diários (Objeto Relacional).

Assim como num mantra, a a-significação de seus componentes semióticos e sua estrutura simples e precisa, são partes imporantes para sua composição relacional. Somente em primeiridade, tanto a interface tangível quanto a paisagem sonora possuem especificidades como liquidez, leveza, maleabilidade e intensividade. Tais comportamentos pretendem despertar nos interatores um entendimento particular destas qualidades em seu inconsciente (que é essencialmente coletivo), como estratégia relacional de acesso às bases da imaginação do sujeito.

Intendem assim, durante o acontecimento de imersão, instigar uma nova percepção de um viajar orgânico pelo caos num espaço liso de interações, onde articula-se somente as intenções e não os resultados finais, bem como cada instante é um novo momento de descobrimento de novas paisagens de um tempo imanente. Uma percepção necessária para se compreender e experienciar cada vez mais uma realidade imaginativa, caótica e em fluxo: uma criação sempre em processo!

“A regra de produzir sempre o produzir, de inserir o produzir no produto, é a característica das máquinas desejantes ou da produção primária: produção de produção.”
Deleuze & Guattari – O Anti-Édipo.

Prosa e próximos passos:

Apesar do palavreado demasiadamente rebuscado (e sim, sei, ainda sem as referências adequadas, e com muitos conceitos a serem ligados e refinados), a ideia prática é bem simples, e é assim que pretendo prosseguir com meu projeto. Tanto por estar gostando bastante ( :D ), quanto por em alto grau parecer fazer sentido perante meu trajeto até aqui.

Há realmente muito chão ainda pela frente! Ao passo que a interface tangível se encaminha relativamente dentro do prazo, preciso me aprofundar nos estudos acerca da manipulação digital dos dados, e principalmente de composição sonora. Um aprofundamento nos estudos de linguagem sonora é muito mais do que necessário – e certa hora devo começar a criar o design visual definitivo do projeto (que até agora não passou de uma experimentação desconexa).

Quando já acho que estou nadando em marés profundas, me vejo ainda tão no raso. Há muito ainda para descobrir com meu próprio projeto e processo. Serão longos 5 meses pela frente. Mas nada me resta senão respirar fundo, manter a empolgação e mergulhar novamente – contando com toda ajuda possível, é claro. [=

O Invisível, o Instrumento e a Criatura

{ em 20.10.2011 } { }

Salto! O Invisível dobra e compõe, ao passo que o Instrumento dobra e sente. A Criatura dobra e liberta! Três traquitanas que brincam e articulam sempre diferentes devires. Sempre de forma aberta ao híbrido, aberta à multiplicidade: juntos fazem rizoma!

Inspirado pelo bricoleur, meu projeto de conclusão de curso é um experimento. Um experimento que começou na criação de um projeto sem fim, e assim pretende continuar. Um experimento com as partículas de uma emergência, mas não fechado à uma forma resultante desta experiência: é aberto ao múltiplo durante todo o processo. Abdico com este projeto de qualquer objetivo já traçado. É o fluxo de meu fazer, possuindo somente intenções inspiradas nos processos mântricos e na complexidade contemporânea (vide mapa do post anterior).

Suas três partes constituem um complexo de linhas de uma mesma multiplicidade. Realidade esta que só se constitui de forma fractal. Falar de um deles, é também falar de todos. Há invisíveis, Instrumentos e Criaturas dentro de cada Invisível, Instrumento e Criatura.

Devir Invisível

O Invisível é o que permeia. É onde as intenções se fazem, é como os movimentos de desterritorialização são possíveis. É constituído de dados crus, fluxos e mapeamentos que transpassam o todo.

 
Ele é o portador do movimento que torna capaz a emergência de todo o processo, um campo vibrátil. Neste projeto o constituo como o não-dito, o inverso. O silêncio, o plano de possibilidades perceptivas, o plano de possibilidades de fuga e remapeamentos. É virtual em essência, o que o possibilita se relacionar sempre ao diferente. É o plano de imanência dos navegantes e todas as aberturas e linhas de fuga para novas realidades.

É um espaço constituído por todas as casualidades e atratores do momento de experiência: é sempre diferente para cada instante. É quem cria as condições, e se realiza somente no acontecimento. É a percepção emergente, a ação resultante, e todo o movimento virtual de ideias posterior à experiência. É no Invisível e no silêncio que as conexões são formadas, as relações formadas balançam a rede gerando repercussões mil.

Neste projeto, o Invisível possui intenções que tocam os territórios da arte, do design, da tecnologia e da psicologia. No Invisível, as intenções são a-significativas e abertas a novas movimentações e multiplicidades, como num mantra. Sua maior característica é ser essencialmente aberto à novas e outras intenções, mas sempre se enquadra no campo compositivo e de criação de novas conexões. O Invisível possibilita o viajar de modo liso: é puro fluxo.

Devir instrumento

O Instrumento é o que capta. É estratégia e modo de acesso à complexidade. É o que faz a interface, constrói as ruas e canais sem fim: os verte a fluxos com destinos em aberto e ainda reconduzíveis.

 
O constituo como um quali-objeto físico-sonoro, configurador de um tipo de movimento: um espaçamento pautado sobre a diferença ondulatória. É captação de parte do Invisível.

É uma interface híbrida, tão simples quanto um pedaço de véu. O tangível nele existe como pura maleabilidade. O navegar desta interface é somente dobra, redobra, estriamento e alisamento. Ele é a ponte, é meio. É uma membrana que cobre e passa entre. Molda-se ainda ao contexto onde existe: pode ser vento, terra, água; pode ser mão, face, ou pé; pode ser dança, brincadeira ou música.

Num cymatic, ele é como a superfície e as partículas. Por si só, não produz nada. Ele é algo que se insere ENTRE-coisas para que novos platôs sejam alcancados. Sua habilidade é transferir o fluxo do manuseio físico da interface (por meios humanos ou não) para o meio digital. Consegue capturar as linhas de movimento através das transformações em seu emaranhado, e transformá-las em dados puros, de modo que possam ser trabalhadas para quaisquer fins.

Qualquer ponto da interface tem a capacidade de se conectar a outra. Sua maleabilidade e configuração o torna aberto à heterogeneidade. Ao mesmo tempo, suas linhas possuem uma constituição própria, conotando uma multiplicidade de feedback durante o acontecimento do manuseio. Pode ainda ser quebrado em pedaços, ou aglutinado a outro, de modo a se formar um emaranhado de Instrumentos outros.

Para tornar possível tamanhas qualidades, o Instrumento tem de estar inserido numa teia maior que o perpetue como acontecimento. Deve ser aberto, de modo que possa ser facilmente modificado, incorporado a outros contextos, reproduzido, quebrado. Uma peça que não se acaba com este projeto, mas somente se atualiza e lança ao mundo para ser modificado e re-utilizado, numa rede de co-criação open-source.

Portanto sua criação tem de ocorrer de forma abertas às bases, e sua produção exige uma abertura no processo de forma que diferentes pessoas possam contribuir, co-criar e co-produzir o projeto. Para isto, vi necessário a criação de um novo espaço de interação para a criação e produção do Instrumento. Nele espero introduzir tanto minha ideia inicial, quanto as pesquisas, testes e protótipos criados tanto por mim, quanto pelos demais entusiastas e ajudantes da rede:

http://www.namainstrument.tumblr.com

Devir criatura

A Criatura é a que cria. Constitui toda uma vida que só é possível através de um instante: e é sempre diferente por ele. Ela dobra o espaço-tempo, vertendo e invertendo fluxos pelo plano dos desejos.

 
Ela é ao mesmo tempo o som que alimenta a emergência, quanto o movimento complexo emergido. A Criatura interpreta o fluxo de navegação dos navegantes perante o Instrumento, extraindo e aprendendo com ele linhas de desejos imanentes. Com estes dados trabalhados, a Criatura estabelece um diálogo com os navegantes através de quali-signos sonoros, que são tan to imagem quanto som.

Cabe a esta comunicação, a esta mensagem, tornar somente visível o próprio fluxo gerado pelos navegantes. Não cabe a ela enquadrar a mensagem sobre outros padrões: ela é uma transferência de um fluxo de desejos, iniciado pelos navegantes, potencializado pelo Invisível, captado pelo Instrumento, e retornado aos navegantes através da Criatura. São conduções de uma mesma vibração, e não re-interpretações. Ela conduz linhas abstratas, e retorna linhas abstratas!

Portanto, a Criatura age tanto no tratamento dos dados inseridos no Instrumento, quanto na resposta que será dada aos navegantes. Mas sua verdadeira potência é na realimentação do sistema com a ação provocada nos navegantes, pois é onde ambos se descobrem durante o processo, é onde os navegantes encontram através do caos um sentido. É um diálogo entre dois arlequins!

Ela ao mesmo tempo territorializa aquilo que o Invisível pressupõe, mas também é ela quem abre os novos espaços e realidades para os navegantes entrarem num estado imersivo de cibercognição, a ponto de modificar o ato de acesso num ato imanente transformador. É a Criatura que traz a tonalidade, e é ela quem aprende a fazer música e dança em conjunto com os navegantes. Cabe a ela verter os fluxos para que seja possível ao conjunto criar produção e mais produção através dos navegantes!

Para tudo isto, necessito portanto atualizá-la num meio e suporte que seja aberto e maleável às diversas variáveis de um sistema aberto. O meio digital não só supre estas necessidades quanto potencializa as relações deste projeto com todas as suas possibilidades compositivas. Neste ponto, imagino que na produção da Criatura lidarei com linguagens de programação (provavelmente Processing), e modos de criação de imagens e som generativos. Por hora tenho estudado estes modos e um pouco de programação generativa, e espero em breve trazer testes destas criações neste mesmo espaço.

Inspirado pelos mantras, o projeto está perpetuado no processo, onde procura ser somente interface para um complexo imanente de descobrimento e codificação. Suas linhas estriadas nada fazem além de indiciar devires, de sensibilizarem o caminhante à novos modos de se perceber e viajar, de movimentar as conexões afim de abri-las a um espaço liso de transformação.

Como configurar um espaço e um tempo onde o viajar de modo liso é possível? Qual seria a tonalidade e as linhas utilizadas que incitassem a emergência deste viajar sonoro? Como configurar um espaço vazio e cheio ao mesmo tempo?

Este projeto não tem fim definido. Não representa estes nem outros questionamentos. Não representa as teorias que o compõem. Não representa nada sólido e imutável. Não representa!

Este projeto propõe! Sua finalidade e suas representações são cambiantes. Constitui um trajeto poético: o projeto está no caminhar, onde o movimento que esta indução traz aos navegantes, é o próprio projeto em si!

Um projeto desejante.

É hora, finalmente, de fazê-lo acontecer! [=


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