Bricoleur

{ em 21.09.2011 } { }

Acho fascinante a facilidade criativa e criadora infantil. Sua habilidade em transformar tudo em arte, do criar do modo mais puro e ingênuo quanto o brincar. Uma arte onde não se sabe bem onde se quer chegar, onde não se possui um propósito aparente e se guia pelo próprio desejo e vontade de se fazer mais e mais. O processo pelo processo.

Viajam por um espaço onde os símbolos transitam livremente. Sempre descompromissadamente. Não há os porquês, e vive-se de modo intenso os “comos”. Os nomes, denotações, e definições não importam – exceto aquelas criadas para sua brincadeira ter efeito. Em seu brincar não há princípio, meio, e fim – uma história sempre se tece pelo “E(…), E(…), E(…)” – e seguindo uma lógica extremamente não-linear, as narrações e situações são sempre intercambiadas durante uma existência.

“Antes eu desenhava como Rafael, mas precisei de toda uma existência para aprender a desenhar como as crianças”.
Pablo Picasso. (cliché, eu sei, mas pareceu-me oportuno).

 

Foi num dia que como por uma brincadeira me peguei a pensar em minha infância. Encontrei rastros na memória de algumas traquitanas criadas, e que hoje revelam tantos devires que entendo possuir.

Colagem tirinha turma da mônica

Gostava muito de histórias em quadrinhos para crianças – em especial “A Turma da Mônica”. O engraçado desta lembrança é não lembrar sequer de uma história que li, muito menos de como eram os detalhes e desenhos das revistas. Mas me lembro distintivamente do que as transformava após tê-las lido.

Meu prazer verdadeiro estava em recortar cada um dos quadrinhos da revista, e depois remontá-los de forma a compor novas histórias – e porque não estéticas – desvirtuando o sentido e propósito inicial. Isto feito numa ordem e lógica que só eu entendia no momento – e sabe-se lá se isto existia, mas o desejo de poder criar o novo de forma bricolada mantém-se muito vivo até o momento.

Ver: cut-up de Burroughs, Musikalisches Würfelspiel, Pulp Fiction.

Foto abertura programa Ra Tim Bum

“Deparamo-nos (…) diante de uma relação direta entre ‘brincadeira’ e ‘arte’. Em ambos os casos há o encantamento diante de uma aparente reorganização espontânea dos esquemas. Em ambos, a permanente invenção e o sentido de vínculo, elo, ligação.”
Emanuel Dimas Pimenta.

 
Por volta dos 7 anos (acho), transitei por uma série de tentativas de recriar uma “experiência maluca científica” (numa referência clara à abertura de “Ra tim bum” da TV Cultura). O objetivo era simples e claro – transitar a água de um ponto da coisa à outro. Mas aqui, novamente, o prazer estava em tentar juntar quaisquer objetos que possuía em mãos para tentar criar a experiência nova.

O engraçado mesmo é que todas falharam. Parece-me que meu interesse estava mesmo no processo de buscar novas peças, tentar entender e juntar as partes, e saber onde poderia aglutiná-las de modo que o fluxo pudesse passar por dentro do todo criado.

Além destas tentativas de traquitanas que pudessem transitar fluxos, possuí uma tentativa de criar uma “academia” de exercícios com objetos achados. Duas latas com pedras suportadas pelo cabo de vassoura eram meus alteres, o galho da árvore era suporte para flexões. Cheguei até mesmo a pintar o muro (obviamente sem permissão) com o nome da academia. Engraçado novamente é que meu prazer esteve em criar o instrumento – porquê usá-lo, ou fazer cumprir seus supostos objetivos, já não era de minha alçada.

Numa terceira experiência, tentei por várias vezes criar um monstro de forma generativa. Mais simples do que as anteriores (mas um pouco mais perigosa), a ideia era que misturando alguns tipos de líquidos (como um desinfetante e um suco de laranja) eu seria capaz de criar monstros que habitariam meu quintal. De todas as anteriores, esta foi a que mais chegou perto de se concretizar.

Ver: Bricolagem e Dadaísmo.

Jeffrey Smart - Hide And Seek (1970)

Das brincadeiras que já vem empacotadas, “esconde-esconde” era com certeza minha predileta. Interessante que mesmo possuindo uma estrutura já definida, ela me permitia assumir e transitar por linhas de fuga de um modo que dificilmente conseguiria em outros momentos.

O prazer de verdade estava em escolher não somente os locais mais difíceis de ser encontrado, mas as formas mais difíceis. Trocava de roupa durante a contagem, virava sargento em guerra, assumia a forma de coruja, gato e cavalo, visitava forros e telhados – ou simplesmente vagava por vários quarteirões por horas para não ser pego. Cada nova partida era uma nova oportunidade de criar uma nova estratégia e assumir um novo devir.

Ver: TAZ.

“A satisfação do bricoleur quando consegue ligar qualquer coisa à corrente eléctrica, quando consegue desviar uma conduta de água…”
Deleuze & Guatarri.

 
Foi ao analisar estas brincadeiras acima que identifiquei um certo modo de se fazer e “ser” para que elas existissem. Como um modo de ser num espaço próprio e único, extremamente potencializador – não um espaço físico, mas um espaço virtualmente muito presente, que exige que eu viaje de um modo muito particular, e possua nele liberdade para criar livremente.

Sinto que nestas ocasiões contadas, e em alguns outros projetos que produzi após estes momentos (como este, e esse que se constrói), retomo a este espaço. E, nada por coincidência, é neste espaço que os projetos com os quais mais me identifico tomam forma. É fruto de um determinado tipo de viagem extremamente modificadora e potencializadora, uma viagem caótica e ao mesmo tempo lisa, intensa em movimento. Viagem onde recombino maquinários desejantes, como um bricoleur que é somente produção e gerador de mais produção.

Este retorno a este espaço e modo de ser no espaço é eterno. E é um retorno à nossa essência, ao o que nos identificamos, a tudo que podemos ser. Ao som e movimento geradores de caráter e produção. Ao verdadeiro fluxo de criação. A um sentimento que é muito maior do que qualquer razão, e que só se consegue acessar pelo pouco que se deixa transbordar pelos dedos.

É imanente em princípios, e enormemente modificador à teia exterior por esta mesma razão. É onde se retira as barreiras que impedem que o fluxo de vida concretize sua essência, e deixa-a se estender a todas as direções – numa brincadeira que faz do EU e do NÓS um espaço de vida.

Bricoleur em essência, busco ser um puro ser-processo cambiante. E tomo os estriamentos e racionalizações somente como partes dos trampolins para mergulhar em novas camadas de mares.

Este é meu design. Esta é a poética de meu fazer. E é assim que o torno verdadeiro.

Mapa do Fazer

Comentários:

[…] Eu fingia que o caminhãozinho betoneira do meu irmão era um microscópio, e que pedras de rua eram pedras raras, jamais encontradas, que não podiam ser vendidas e que eu, cientista, tinha que analisar “para o mundo”. (eu era super importante =D).

Zentsi ( 2011-09-22 at 14:37 )

Olá Uvinha

Esse texto foi um achado no meu dia. Valeu fiote !!!
Foi um achado pq estava eu escrevendo sobre as mesmas coisas, cousa de infancia.
E é na infância, sempre nela, que tento descobrir o que estou fazendo pro meu TCC.
Me senti inspirado, pq na essência do texto, vc conseguiu ir mais além !!! Algo q ainda naum consegui.

sucesso no tcc meu fiiii

Lucão ( 2011-09-22 at 20:48 )

Lira de Dirceu,

Para você ver como precisamos voltar a isso – não é aí que reside a importância?
Procurarei betoneiras para olhar as coisas mais de perto, de hoje em diante! Quero ver mais ! [=

Lucão, obrigado mesmo!

Fiquei muito feliz mesmo que você tenha curtido – sobretudo por conhecer todo seu jeito de pensar.
Olhando para dentro se explode muito para o fora, não é? A infância é um tempo eterno de inspiração para mim também. Quero muito ver como vai seu TCC!

Luiz Gustavo ( 2011-09-22 at 23:17 )

Compor


Creative Commons License Com Wordpress | Karappo